Como a indústria química aderiu à luta contra a mudança do clima

Publicado em 19/10/2016

Pode parecer surpreendente que as grandes companhias qumicas do planeta estejam na linha de frente do combate mudana do clima, lutando por desordenar os setores em que elas mesmas atuam.

Como a indústria química aderiu à luta contra a mudança do clima
Foto: Divulgação

Mas em um acordo abrangente assinado sbado (15) em Kigali, Ruanda, fabricantes de produtos qumicos como a Honeywell e a Dupont estiveram entre os mais ativos proponentes da proibio de um produto qumico lucrativo que h muito serve de fundao aos setores de refrigerao e ar-condicionado.

O que movia essas empresas era menos o ambientalismo que a intensa competio, e a aposta em que elas seriam capazes de criar produtos alternativos menos prejudiciais ao ambiente. Ainda assim, alguns ambientalistas afirmam que a deciso de abandonar o hidrofluorocarbono, ou HFC, oferece um exemplo que outros setores podero seguir.

“Eles aprenderam que, sem uma mudana nas regras, seus novos produtos no seriam capazes de competir”, disse David Doniger, diretor do Programa de Clima e Ar Limpo no Conselho de Defesa dos Recursos Naturais norte-americano, em Washington. “Eles acordaram e perceberam que a cincia era verdade”.

“Ns queremos a restrio desses produtos por motivos puramente ambientais. As empresas querem que eles sejam restritos por muitas outras razes”, entre as quais o lucro, disse Doniger. “Mas o ponto que elas passaram a ter um interesse comum com a comunidade internacional”.

A resposta do setor qumico contrasta fortemente com a tergiversao e, em muitos casos, obstruo aberta de regulamentaes ambientais por parte das grandes companhias petroleiras. Exxon Mobil, Chevron e outras vm sendo criticadas h dcadas por seus esforos de lobby contra regras que restringiriam a emisso de gases causadores do efeito estufa, ainda que seus pesquisadores mesmos tenham alertado sobre os riscos de uma mudana no clima.

Alguns ambientalistas afirmam que as empresas qumicas acabaram por influenciar demais o acordo de Kigali. Tambm dizem que o acordo poderia ter sido mais ambicioso em termos de cronograma e de escopo.

E existem preocupaes de que muitos produtores qumicos nacionais de menor porte no se beneficiaro to rpido, o que concentrar o poder do setor nas mos das maiores companhias do planeta. Boa parte da resistncia ao acordo veio da China e da ndia, que temiam que algumas de suas empresas de produtos qumicos teriam de fechar as portas, ou que seus consumidores se vejam submetidos a preos mais altos.

“Ainda que tenhamos recebido o resultado positivamente e que tenha havido progresso, quem est ditando o ritmo a indstria”, disse Paula Tejn Carbajal, estrategista mundial de negcios da organizao ecolgica Greenpeace, em Amsterd.

O acordo de Kigali o mais recente captulo no um papel ocasionalmente desastroso, em termos ecolgicos, desempenhado pelo setor de ar condicionado e refrigerao. Por dcadas, uma categoria de produtos qumicos chamados clorfluorocarbonos (CFC) foi amplamente usada em condicionadores de ar e refrigeradores, bem como em sprays de aerossol e produtos de limpeza.

Os cientistas terminaram por alertar que o CFC desgasta a camada de oznio, que protege o planeta contra os raios solares ultravioleta. O setor qumico inicialmente resistiu, apontando que as alternativas no eram viveis economicamente. “Eles se comportaram de modo horrvel, exatamente como o setor de carvo”, disse Doniger.

Mas as preocupaes dos consumidores quanto ao produto levaram a uma queda de vendas, e alguns poucos pases proibiram o uso do CFC. Em 1987, o Protocolo de Montreal, um acordo ambiental, foi assinado para tirar o CFC de circulao.

A alternativa disponvel na poca, o HFC, consistia de gases causadores de efeito estufa com mil vezes a potncia do dixido de carbono, em termos de aprisionamento de calor. A preocupao quanto a essa categoria de produtos qumicos levou os ambientalistas a iniciar campanhas pela proibio do HFC.

Quando esse momento chegou, o setor qumico correu para se antecipar a qualquer nova rodada de regulamentao. No momento em que a transio para o HFC estava sendo implementada, no comeo dos anos 2000, a Honeywell e diversas outras empresas iniciaram programas de pesquisa e desenvolvimento com o objetivo de estudar alternativas com potencial muito mais baixo de promover o aquecimento global.

A Europa apertou sua regulamentao em 2011, com regras mais severas cujo objetivo era eliminar o uso do HFC em sistemas de ar condicionado para veculos. As autoridades regulatrias dos Estados Unidos conferiram crditos a fabricantes de automveis que adotassem produtos alternativos ao HFC em seus condicionadores de ar.

Em 2012, a Honeywell criou uma base de produo logo ao norte de Xangai a fim de produzir uma alternativa ao HFC que causa menos danos ao meio ambiente, o HFO-1234yf. A companhia em seguida construiu uma segunda fbrica ao norte de Tquio, e deve inaugurar sua maior base de produo, em Geismar, Louisiana, no comeo do ano que vem. Ela investiu US$ 900 milhes em seu programa de gases de refrigerao alternativos.

De l para c, a Honeywell vem expressando publicamente seu apoio a regulamentao mais severa e, em 2014, foi parte de um grupo de empresas que se alinhou ao governo Obama para trabalhar quanto a uma reforma no Protocolo de Montreal.

Agora que o planeta decidiu eliminar o HFC, a empresa poder colher os benefcios de seu investimento. Ainda que ela no fornea nmeros separados sobre a sua diviso qumica, informou que suas vendas de alternativas ao HFC esto crescendo rapidamente, o que ajuda a empresa a ampliar sua receita anual com a diviso de produtos de flor em mais de dois dgitos anualmente, ultrapassando a marca do US$ 1 bilho em faturamento.

“Essa uma rea na qual estamos alinhados com os benefcios ambientais”, disse Kenneth Gayer, vice-presidente de produtos de flor na Honeywell, em entrevista. “Antecipamos a necessidades dessas regulamentaes antes que as pessoas comeassem a falar de aquecimento global. Agora, o mundo vai usar os produtos alternativos em larga escala”.

H outras opes disponveis, hoje, entre as quais sistemas que usam propano ou amnia, e companhias ao longo de toda a cadeia de suprimento esto correndo para adot-las. A Coca-Cola, por exemplo, colocou em servio mais de 1,8 milho de mquinas de venda automtica refrigeradas e outros equipamentos que no usam HFC.

Ainda assim, alguns ambientalistas acautelam quanto ao veem como influncia excessiva do setor empresarial em definir o futuro percurso das tecnologias de refrigerao.

A Daikin produz uma alternativa de baixo custo ao HFC chamada HFC32, que tem impacto relativamente baixo em termos de aquecimento global e vista como til em mercados como a ndia. A Daikin, sediada em Osaka, Japo, produz equipamentos de ar condicionado e ingredientes qumicos para eles. Algumas de suas patentes foram colocadas em domnio pblico para encorajar indstrias de diversos pases a usar seus produtos.

Carbajal, da Greenpeace, v a promoo agressiva do HFC32 como problemtica. Ela diz que a indstria decide “o que baixo e o que alto, e por isso estamos muito preocupados”. Carbajal disse que embora existam diversas boas alternativas ao HFC, no so elas que esto sendo adotadas em alguns pases. “O problema que a ambio no vem sendo to grande quanto espervamos”, ela disse.

Damian Thong, que comanda a seo de pesquisa de tecnologia asitica no banco Macquarie, disse que a Daikin havia apoiado o HFC32 em um esforo para encontrar equilbrio entre o potencial de aquecimento global e uma maior eficincia energtica.

As emisses dos condicionadores de ar tambm envolvem a energia eltrica que eles consomem, disse Thong. “A questo que vem sendo desconsiderada que o foco exclusivo no aquecimento global pode ainda assim significar danos ao meio ambiente”, disse.

A despeito das questes remanescentes, o acordo de Kigali serve como exemplo de uma dinmica emergente, na qual empresas se antecipam a mudanas nas normas ambientais por meio do desenvolvimento de produtos menos prejudiciais ao meio ambiente, e pressionam por regulamentao que promova o crescimento de seu mercado, dizem especialistas em questes ambientais.

“Mais e mais empresas esto olhando cada vez mais longe para o futuro, a fim de determinar que mudanas esperar, e o que elas precisam tirar de produo em suas linhas”, disse Baskut Tuncak, advogado das Naes Unidas especialista em produtos qumicos txicos. “Isso mostra que a regulamentao pode estimular a inovao”, ele disse. “Quanto mais tivermos uma abordagem mundial, melhor, at mesmo para as empresas”.

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